É comum ouvir das criaturas que têm filhos a frase "aproveite enquanto ainda não os têm, porque depois...". Essas reticências me dão calafrios! Acho mesmo que ninguém, antes de tê-los, tem a real noção da abnegação, da entrega, da mudança que acontece com a chegada de tão (in)dependentes pessoinhas. Não adianta dizer que já teve experiencia com o sobrinho, com o filho da vizinha, com o cachorro ou com a samambaia predileta da mãe, é certo que com o seu filho a coisa será bem diferente. Aí te perguntam: "Tá pronta pra isso?" Sério que querem a resposta? Alguém, nesse mundo de Meu Deus, pode dizer com plena certeza de que está? Porque quando você imagina o seu filho, ele é um fofo, saudável, amoroso, estudioso e todos os outros "osos" de que é capaz de desejar. Mas a vida não é assim. Tem os sustos das febres, das quedas, as brigas, os desvios de comportamento e tantas outras coisas que, se você pensa muito, recua e desiste do desafio. Então tá, respondo que estou pronta, mas que morro de medo. Pode ser?
Uma amiga contou algo bem simples dias atrás que é um exemplo pequeno e engraçado desses imprevistos. Estava com a família numa festa de Reveillon, poucos minutos antes da virada do ano. Seu filhote, de apenas 3 anos e em fase de "desfralde", a chamou: "Mainha, quero fazer cocô". Ela "Filho, espera um pouco, vamos ver o ano novo chegar!". Ele a olha por 30 seg, aumentando a careta... "Mas eu quero agora". Ela corre com ele pro banheiro, limpa o vaso, forra, o coloca sentadinho e ouve os "pow, pow, pow" (dos fogos lá fora!). Respira fundo, resignada, abraça o filho - ainda no vaso - desejado-lhe um feliz ano novo. Eis que o pequeno termina, ela o limpa, lavam as mãos e saem juntos, quando enfim ela pode cumprimentar o marido e os outros familiares. Meia hora depois o pequeno pergunta: "Mãe, a gente não vai?". Ela:"Pra onde filho, pra casa?". Ele: "Não, ver o Ano Novo chegar!". Óbvio que ele não fazia a mínima idéia de quem era esse cara...
